Como é morar em uma homestay canadense em North Vancouver

Que Vancouver é uma cidade altamente turística e é a escolha de milhares de pessoas que gostariam de fazer intercâmbio para estudar inglês ou fazer alguma outra graduação não é novidade. Porém, o que nem todo mundo sabe é que a cultura de homestay daqui é também é muito presente.

Apesar de não ter a estatística exata, é certo dizer que pelo menos 70% das famílias que já estão estabilizadas na grande Vancouver costumam receber intercambistas por curtos ou longos períodos. Além de ser uma fonte extra de dinheiro, os canadenses gostam de estar em contato com outras culturas, já que o traço principal do país é a multiculturalidade.

Na prática, eu também acredito que muitas famílias aceitam pessoas em seus lares como uma tentativa de preencher o vazio das casas, que, na grande maioria das vezes, têm muitos quartos e são grandes demais para duas pessoas. Outro motivo comum para receber estrangeiros é para continuar a ter condições de continuar vivendo nessas casas, que têm taxas e impostos altíssimos.

Esse é o caso da homestay na qual estou vivendo. Em North Vancouver, moro com um casal de idosos: Heather (72 anos) e Michel (70 anos), ambos nascidos e criados no Canadá, a única diferença é que o Michel nasceu em Quebec (portanto, fala francês) e veio para British Columbia com 20 anos.

heathe

Pela foto, fica a impressão de que se trata de um casal de velhinhos fofos, mas, na prática, não é bem assim. Para a minha surpresa, a Heather não é uma pessoa doce e muito menos tem o estilo vovózinha (pelo menos pra mim, avós são aquelas pessoas adoráveis, que fazem de tudo pra agradar os outros, principalmente os netos). Pelo contrário! Ela é uma pessoa mais fria, extremamente direta e não é de muitos sorrisos, mas ainda sim é muito interessante. Acredite ou não, ela lê pelo menos quatro livros POR SEMANA! A inteligência e memória dela, mesmo numa idade já avançada, é simplesmente impressionante.

Enquanto a Heather é altamente capaz de dizer quando tal coisa aconteceu, o dia, a hora e se estava chovendo ou não, o Michel já é completamente o oposto. A memória recente não é tão boa, então quase todo dia ele vai repetir o que falou, o que é bem engraçado. Apesar disso, ele é um velhinho muito fofo e amigável e eu adoro passar um tempo conversando com ele, que sempre conta piadas e histórias de quando ele era mais novo.

Os dois recebem estudantes há mais de quinze anos e já tiveram contato com mais de 200 pessoas, todas maiores de idade, por opção deles, que acham muita responsabilidade receber adolescentes, que costumam dar mais trabalho.

A minha interação com eles acontece toda noite no horário da janta, que sempre sai às 19h30. Vale destacar que a comida é ótima, regra que não se aplica a outras homestays. Enquanto comemos, ficamos juntos na sala de TV para assistir Jeopardy, um programa de perguntas e respostas feito para um público mais seleto. A dificuldade das perguntas é grande, mas a Heather – que era professora de geografia, história e inglês – sempre vai responder quase tudo corretamente.

Na sequência, assistimos House Hunters, um programa que mostra americanos tentando alugar casas em diversas cidades dos EUA e do mundo. Michel sempre oferece sorvete e chá, e eu me controlo pra aceitar o sorvete só aos finais de semana, hahaha!

Enquanto assistimos TV, também conversamos sobre os mais diversos assuntos. Para mim, a parte mais valiosa em morar com canadenses de verdade é que eu tenho contato com a língua inglesa – sem erros gramaticais ou de pronúncia -, e sempre aprendo palavras e expressões novas, o que não acontece na faculdade, onde eu convivo com estudantes internacionais que têm o mesmo nível que eu ou até bem pior. Ter a oportunidade de conviver com a Heather e o Michel também me garante conhecimento maior sobre a cidade, sobre como os canadenses pensam e quais são as angustias e anseios deles em relação ao próprio país. 

Apesar de estar gostando muito de morar com eles, nem tudo são flores. A Heather é meio brava e às vezes não trata o Michel bem, o que é bem constrangedor de presenciar. Já estive no meio de algumas discussões deles (ou melhor dizendo, ela brigando com ele) e a única coisa que eu posso fazer é olhar pro teto e fingir que não estou por perto.

De qualquer forma, me sinto privilegiada de conviver com pessoas com muita bagagem e histórias para contar. Apesar da idade, são pessoas lúcidas, saudáveis e gratas pela qualidade de vida que o Canadá oferece. Eles lavam, passam, cozinham, cortam a grama, vão à academia e têm muita disposição.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s